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Camaçari no caminho do “fogo simbólico do 2 de julho” e sua presença na Independência da Bahia

Escrito por Diego Copque em 01 de Julho de 2019
[Camaçari no caminho do “fogo simbólico do 2 de julho” e sua presença na Independência da Bahia]

(Foto: Sérgio Oliveira)

A história de Camaçari e sua presença nos principais momentos de formação da história da Bahia e do Brasil não começa nos anos de 1970 com o Polo petroquímico e todo o seu legado com o novo e moderno Polo Industrial, o maior da América Latina. Camaçari vai muito além de Vila de Abrantes. A aldeia do Espírito Santo foi um dos primeiros aldeamentos a ser fundado no Brasil, iniciado pelos padres jesuítas no ano de 1558.

Também foi o primeiro aldeamento a se tornar vila indígena no Brasil. O aldeamento do Espírito Santo foi um dos pilares de sustentação do projeto colonizador na defesa de ataques internos e externos, principalmente devido à sua proximidade com a capital do país que impedia a expansão dos invasores para os sertões da colônia.

Com a invasão dos holandeses em 1624, o aldeamento se tornou capital e sede de resistência do Brasil. Os índios tiveram uma importante e decisiva participação nas ações de combate contra os batavos e suas táticas de guerra foram denominadas de "guerras brasílicas".

Camaçari também teve presença, ainda não devidamente mensurada, nas lutas pela Independência da Bahia. Um desses marcos é a “Estrada das Boiadas”. Poucos sabem da sua existência e da sua importância histórica e comercial.

A Estrada Real das Boiadas era uma trilha de terra que unia a cidade do Salvador a outras capitanias do país. Essa imemorial estrada que corta Camaçari na região do bairro do Triângulo até o bairro de Santa Maria, conserva um trecho que servia para passagem do gado bovino criado nos sertões do Brasil, destinados a comercialização na Feira de Capuame, atual município de Dias D’ Ávila, esse gado seguia para o abate na cidade do Salvador, dando origem ao nome de " Estrada das Boiadas".

Essa mesma estrada está inserida no contexto histórico das lutas pela Independência do Brasil na Bahia, e todos os anos o fogo simbólico das comemorações do dia 2 de Julho é levado a Igreja de São Bartolomeu de Pirajá, onde estão os restos mortais do general francês Pierre Labatut. Saindo da cidade de Cachoeira, uma das referências nas lutas para a independência, o fogo simbólico passa por Saubara, Santo Amaro da Purificação, São Francisco do Conde, Candeias e Simões Filho, ficando de fora os municípios de Camaçari e Dias D' Ávila que foram importantíssimos nesse processo.

Em sua obras poéticas, Ladislau dos Santos Titara, militar que participou das ações de combate da independência é natural de Capuame e também autor da letra do Hino ao 2 de julho, ele nos traz importantes informações a respeito da atuação dos soldados do regimento de linha, que sob as ordens do primeiro-sargento Manoel Alves do Nascimento, se apresentaram na Feira de Capuame ao comandante das forças da Torre e Pirajá, Joaquim Pires de Carvalho e Albuquerque.

Esses militares  organizaram na Casa da Torre em Açu da Torre os regimentos denominados de Batalhões da Torre para fazer frente aos portugueses. Devido ao sucesso de sua atuação, Carvalho e Albuquerque foi nobilitado com o título de Barão e Visconde de Pirajá.

Santos Titara, além de descrever os feitos militares, menciona os rios Joanes, Jacuípe, Camaçari, da Prata e Piaçaveira. Sua obra é um importante testemunho da atuação de Abrantes, Açu da Torre, dos moradores  do povoado de “Camassary” e da região que compreendia a Feira de Capuame, hoje município de Dias D' Ávila na consolidação da Independência do Brasil na Bahia.

O trecho remanescente da Estrada Real das Boiadas, que passa pelo município de Camaçari, foi via de acesso das tropas brasileiras que no dia 2 de julho de 1823, seguiram vitoriosas com destino a cidade do Salvador. O exato trecho que nos referimos passa pelo atual município de Dias D’ Ávila, seguindo pela via de ligação, passa pelo Complexo Petroquímico de Camaçari até o bairro da Lama Preta chegando ao bairro de Santa Maria, se estende ao distrito de Góes Calmon que na época pertencia a Vila de Abrantes sendo denominado de Moritiba do Rio Joanes, hoje pertencente a Simões Filho.

Outra importante referência sobre a presença de Camaçari nesse processo está na edição do dia 16 de julho de 1930 do “Jornal do Commercio” do Rio de Janeiro, publicação que noticiou o reconhecimento do Estado com relação à importância de Camaçari na Independência do Brasil na Bahia.

Naquela altura foi inaugurado pela diretoria do Arquivo do Museu Estadual da Bahia, um marco comemorativo na cidade de Camaçari referente a entrada das tropas libertadoras na cidade do Salvador, em 1823.

Acreditamos que essa seja uma das razões que possa justificar a inserção de Camaçari no circuito da passagem do fogo simbólico nas comemorações do 2 de julho. Esse reconhecimento histórico que data de 1930 e muitas outras histórias que se referem ao município de Camaçari não podem se perder no tempo. Por esta razão é muito importante a implementação de políticas públicas que valorize o ensino da história local.

Desenho do primeiro carro alegórico do 2 de  julho denominado de " Triumpho do dia dous de julho." De acordo com o periódico baiano, O reverbero edição. 014, página 1. Ano1871. Observa-se apenas a representação do caboclo a imagem da cabocla foi inserida depois.

Diego de Jesus Copque [email protected] é professor, compositor letrista, historiador, pesquisador da História de Camaçari e autor do livro em fase de edição "Do Joanes ao Jacuípe, uma história de muitas querelas, tensões e disputas locais".

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