Artigo

Edvaldo Jr. escreve sobre a fome no Brasil

Escrito por Edvaldo Jr. em 26 de Abril de 2021
[Edvaldo Jr. escreve sobre a fome no Brasil]

(Foto: Reprodução)

Se tem fome dá de comer!

Como pode no mesmo país em que se produz alimento suficiente para alimentar 1 bilhão de pessoas, ter 19 milhões passando fome e outros 117 milhões sofrendo com insegurança alimentar? Como construir uma sociedade, um país justo nas condições atuais do Brasil? Talvez seja a pergunta a ser respondida ao longo desse texto.

A pobreza é um fenômeno que em toda parte do mundo acaba por privar as pessoas de acessar uma alimentação adequada, o que condiciona esse contingente a viver fadado ao insuficiente desenvolvimento físico, psicológico e social. A desigualdade de oportunidade no que diz respeito a educação, participação política e cuidado com a saúde são fatores que contribuem para que essas pessoas se mantenham reféns das condições de miséria extrema. A medida em que se mantêm essas condições, esse nível de desigualdade ajuda a reproduzir a pobreza, o que acaba por gerar fome crônica e uma percepção negativa do desempenho social e humano desses grupos.

Sem dúvida, o direito à alimentação é, dentre todos os direitos contidos no Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (Pidesc) da ONU, (Organização das Nações Unidas) o mais descumprido em todo o mundo. A FAO estima que dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta, quase 1 bilhão sofre de fome crônica. O prejuízo representado pela fome não é apenas físico, mas também pode resultar em danos neurológicos irreversíveis, que são acompanhados de distúrbios nas áreas cognitivas e emocionais. Debilitado física e mentalmente, o ser humano subalimentado se torna vulnerável e tem prejudicadas suas funções orgânicas e aptidões para executar um trabalho regular. Nessa complexidade funcional e fisiológica, imagina-se que a “dor de fome” seja incompreensível aos que dela não padecem, sendo presenciada, mas não sentida.

Contudo, as pessoas pobres almejam alcançar as condições de agentes do seu próprio destino, porém a pobreza evidencia o quanto desalentado e inalcançáveis são as possibilidades de concretizar esse desejo. Me parece que a falta de empoderamento desse contingente de excluídos sociais se apresenta como verdadeiro impedimento ao gozo pleno do exercício da cidadania, o que os privam de serem pessoas autônomas detentoras de seus direitos. A impossibilidade de acesso a uma dieta nutritiva juntamente com a absoluta pobreza em que vivem, é o que os mantém na zona de exclusão social que os avilta a oportunidade de serem encarados como pessoas dotadas de dignidade humana. 

No caso da cidade de Camaçari nós sabemos que esse contingente existe, contudo, não temos a real dimensão do número de pessoas que passam fome ou que sofrem com a insegurança alimentar, o que dificulta uma atuação mais assertiva por parte do governo local. Porém a ausência de dados não pode ser utilizada como limite na atuação de alcançar essas pessoas e apresentá-las ao sentido claro de cidadania.

As pessoas que passam fome são incapazes de desenvolver seu potencial intelectual e físico, como resultado da carência alimentar, o que os tornam potenciais vítimas de inúmeras enfermidades ligadas a baixa imunidade. Os seres humanos que não dispõem de alimentação básica para manter sua nutrição, se sentem perdendo sua dignidade pessoal o que os levam a apresentar quadro de ansiedade e depressão. Nesse sentido a pobreza absoluta acaba por produzir efeito colateral no indivíduo, na família e na própria comunidade, tendo em vista o potencial de produzir efeitos indesejáveis.

Nós não podemos fechar os olhos para as injustiças claramente remendáveis que nos cerca todos os dias, mas para isso precisamos nos empenhar, assumir o papel dos que verdadeiramente trabalham pela paz social e perseguir o ideal de solidariedade humana. Para isso, precisamos superar as graves injustiças sociais que acometem 19 milhões de Brasileiros que figuram na pobreza absoluta sem ter um mísero pão seco para oferecer a suas famílias dia a pós dia. Esse é o primeiro passo para alcançarmos a justiça que tanto queremos, e tanto precisamos.

Edvaldo Jr. é Professor Historiador pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), pós-graduando em Direito Público Municipal pela Universidade Católica do Salvador (UCSAL).

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